CREDO
Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamante,
Creio em amores lunares com piano ao fundo
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de uma astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Amén.
Natália Correia, Sonetos Românticos.
Música Portuguesa, dos Açores, interpretada, em inglês, por uma excelente cantora. É uma grande revelação.
Convosco, NINA MEDEIROS.
ABNEGAÇÃO
Chovam lírios e rosas no teu colo!
Chovam hinos de glória na tua alma!
Hinos de glória e adoração e calma,
Meu amor, minha pomba e meu consolo!
Dê-te estrelas o céu, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palma,
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!
E nem sequer te lembres de que eu choro...
Esquece até, esquece, que te adoro...
E ao passares por mim, sem que me olhes,
Possam das minhas lágrimas cruéis
Nascer sob os teus pés flores fiéis,
Que pises distraída ou rindo esfolhes!
Antero de Quental.
"Olho lá fora: as árvores estendem ramos horizontais sobre a relva. As meninas brincam sob frondosas copas dessas árvores, e há uma coloração de azul no verde que vai do jardim até ao pequeno bosque das traseiras. Se se visse o mar, se pudesse ouvi-lo daqui, esta seria uma das casas da minha paixão. Ouço o silêncio. Um pouco ofegante, ele respira. Por um momento, penso estar sob a protecção das velhas criptomérias dos Açores. Sei que é o mesmo silêncio açoriano porque sempre o vivi assim, por entre um sopro que estremece os ramos ou vibra do fundo do solo, soltando-se da raiz das árvores ou do interior dos seus troncos. A minha vida esteve sempre esteve separada deste silêncio que só existe nas casas pousadas no centro dos jardins, se possível com um arco de mar à vista e com os seus pássaros _ garças, pombos-da-rocha ou cagarras nocturnas. Bom seria que houvesse também flamingos vermelhos, cisnes, pavões com leques de penas e um arco-íris, ou grandes perus negros e de pescoços alcoólicos. Que ao menos a vida me devolvesseas árvores, os pombais, os muros que um dia rodearam a casa da minha infância!"
João de Melo (nascido na Achadinha, Nordeste, S. Miguel, Açores), Gente Feliz com Lágrimas.
Música tradiconal açoreana, interpretada pelo Coro da Academia da Povoação.
Graciosa.
«É DOS OLHOS GENTIS DA MINHA AMADA»
Um prodígio de encantos, de beleza,
És, ó mãe dos terníssimos Amores,
Que, em teus lábios, seus áureos passadores
Ervam, seguros de acertar a presa.
Fulge em teus olhos divinais acesa
A tocha dos desejos sedutores;
Em ti de seus esmeros, seus primores,
O tesoiro esgotou a Natureza.
Mas oh, por mais que arte divina estude,
Não te dá da inocência a flor nevada
Que se não finge, nem fingida ilude!
Esse dom virginal que tanto agrada
É só mimo da cândida virtude,
«É dos olhos gentis da minha amada.»
Almeida Garret. (Esteve na Graciosa, durante as lutas liberais.)
Música tradicional dos Açores, interpretada pelo grupo Andarilhos.



